A actual greve dos maquinistas da CP, em relação à qual manifesto a minha solidariedade, tem como causa 200 processos disciplinares instaurados aquando da última greve geral, isto porque os trabalhadores, ao que consta, se recusaram a cumprir os serviços mínimos. É verdade de que de legislação laboral não tenho grandes conhecimentos, mas, e tendo como premissa que nem tudo o que está na lei é justo, questiono a obrigatoriedade de se cumprir serviços mínimos aquando duma greve. Os serviços mínimos em causa, decretados certamente pelo papel estruturante que os transportes têm, não podem deixar de ser vistos como uma perda de poder negocial por parte dos trabalhadores para a defesa das suas reivindicações, não dando à greve a força que deveria ter.
Associado ao tema da greve aparece sempre a temática dos custos da mesma. Com ar cândido, aparece sempre alguém que fala no dinheiro que se perde com as greves, que o país está em crise, e que, no fundo, ninguém quer é trabalhar! O engraçado é que, muitos desses discursos, principalmente os que provêem de políticos de direita, começam sempre pelo laminar: "A greve é um direito consagrado na Constituição, mas...", vindo com este "mas" a enumeração de vários contextos - alguns anteriormente apresentados -, chegando-se mesmo a enunciar que em caso de greve de certos sectores como os de transporte, muitas pessoas que "se calhar" nem queriam fazer greve, são "obrigadas" a fazê-lo. Curioso constatar nunca referir que muitos trabalhadores precários não fazem greve, mesmo querendo fazê-la, pela simples razão da sua instabilidade relativamente ao posto de trabalho, na prática, não o permitir. Uma outra conversa, também ela muito interessante, sobre o porquê dessas situações e quais as opções políticas que estiveram por detrás delas, seria muito pertinente para confrontar com tais posições. Aliás, e mesmo invocando-se a Constituição de forma a que não pareça que estão contra o simples direito à greve, a lógica que parece estar por detrás de tais discursos é que um direito, mesmo os constitucionais, só é mau, quando causa prejuízo financeiro a alguma empresa. Se, por acaso, agentes policiais são infiltrados numa manifestação, criando conflitos e desrespeitando a lei, aí já não parece haver problemas.
Por último, e falando mais da CP em concreto, há vozes que se indignam por acontecer uma greve numa empresa falida e que não paga a horas aos seus trabalhadores. Engraçado é que, neste caso, o Governo já não poder nacionalizar uma empresa que é praticamente pública como a CP - pelo menos, até a privatizarem como é o objectivo -, mas nacionaliza BPNs para os darem posteriormente a amigos, transfere fundos de pensões, e tem guardadinho um presente de 12 mil milhões para a banca. Não investe nos transportes, bem como em outros sectores importantes para a economia e sociedade, mas não se esquece de investir na Administração Interna para impor um Estado Policial.
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